VOCÊ SABE QUEM FOI O TENENTE EURICO LARA?

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Por Cel Araujo   
21 / 11 / 2009
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Seja gremista ou colorado, é difícil encontrar um gaúcho que goste de futebol e que não conheça o nome “Eurico Lara”, o maior goleiro de todos os tempos do Grêmio Foot Ball Porto Alegrense.

No entanto, poucos sabem que, durante toda sua vida profissional, Eurico Lara integrou os quadros do Exército Brasileiro, fazendo carreira de Soldado a Tenente e participando ativamente de momentos delicados do Brasil, como a Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder.

Talvez não haja, no País, a história de um atleta tão identificado com o clube que seu nome tenha ido parar na letra do hino oficial da instituição. Esse é o caso de Eurico Lara, um goleiro natural de Uruguaiana que, na época do amadorismo, defendeu as cores do Grêmio em 16 temporadas (de 1920 a 1935). Graças aos seus elevados dotes morais e técnicos, Lara, ainda hoje, é tido como símbolo do jogador gaúcho e uma verdadeira lenda dentro destes mais de 100 anos de história do Grêmio.Nascido em 1898, começou a jogar futebol no time de uma organização militar do Exército, em Uruguaiana. Dizia-se, na época, que na cidade fronteiriça existia um arqueiro que, quando jogava, o time não perdia. Não demorou muito para que as informações sobre o atleta chegassem aos ouvidos dos dirigentes gremistas, os quais imediatamente deslocaram olheiros para a região. Mesmo sem demonstrar interesse em atuar como jogador de futebol em Porto Alegre, o Anspeçada (Cabo) Eurico Lara acabou sendo transferido de Uruguaiana para o quartel da Carta Geral (atual 1ª Divisão de Levantamento), graças a pessoas influentes dentro do Grêmio.

Sem abandonar a farda, chegou ao Grêmio em 1920 culminando com a conquista do Campeonato da Cidade de Porto Alegre. Dois anos depois, além de defender a seleção do Exército que venceu o campeonato entre as Forças Armadas, começou a construir sua reputação como goleiro no centro do país, depois de defender, com destaque, a esquadra gaúcha no Torneio Preparatório visando a escolha da seleção brasileira que disputaria o Sul-Americano.

Lara fechou o gol em uma partida realizada no estádio Parque Antártica entre gaúchos e paulistas em 1922. Os donos da casa venceram por 4 a 2 mas, no final, o goleiro do Sul foi ovacionado por uma multidão que invadiu o gramado para cumprimentá-lo. Afinal, não era qualquer um que conseguia defender mais de 20 chutes desferidos pelo atacante Friendereich, o maior nome do futebol brasileiro naquela época. Apesar de tudo, e para surpresa de todos, o gremista não foi chamado para a seleção.

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Lara era um cavalheiro dentro e fora de campo. Se o juiz se equivocava e, por exemplo, marcava um pênalti inexistente contra o Grêmio, ele argumentava polidamente e fazia o adversário confessar que não fora falta. Mas, se o engano favorecia o Grêmio, Lara também pedia que o árbitro voltasse atrás.

Na carreira militar, Eurico Lara chegou ao posto de Tenente, tendo, inclusive, participado das forças revolucionárias que, em 1930, escreveram uma página importante para a história do País.

Aos poucos, o goleiro das defesas impossíveis começou a mostrar sintomas de uma crônica tuberculose, doença que matava naqueles tempos. Outro problema: tinha insuficiência cardíaca, agravada pela tuberculose. Em setembro de 1935, mesmo com ordem dos médicos para não mais atuar, Lara decidiu entrar em campo para a decisão do Campeonato Farroupilha, onde o Grêmio precisava vencer o Internacional para levar o troféu. Foi uma de suas maiores atuações com a camisa do Grêmio, perante uma torcida maravilhada e sabedora do esforço realizado pelo atleta para poder participar da partida. Vitória do Grêmio por 2 a 0 e, como de costume, Eurico Lara carregado nos braços do povo. Após a comemoração, foi direto para o hospital Beneficiência Portuguesa, de onde não mais saiu.

dGremistas e colorados que lotavam as dependências do estádio (Fortim) da Baixada sairam às ruas, no dia 06 de novembro, dois meses depois do Gre-Nal Farroupilha, para chorar a perda de um dos maiores desportistas do país. O enterro de Lara parou Porto Alegre e o atleta entrou para sempre na história do Grêmio e no coração de quem teve o privilégio de vê-lo atuar.

Títulos conquistados: Campeão da Cidade: 1920, 21, 22, 23, 25, 26, 30, 31, 32, 33 e 35.
Campeão Gaúcho: 1921, 22, 26, 31 e 32

Letra do Hino: “Lara, o Craque Imortal
Soube o seu nome elevar
Hoje, com o mesmo ideal
Nós saberemos te honrar”

Trecho do Hino Oficial do Grêmio (terceira e última parte) composto em 1953 por Lupcínio Rodrigues que homenageia o goleiro gremista Campeão Farroupilha. Para ouvir o hino, clique aqui.

*Matéria baseada em colaboração enviada pelo Cel Júlio César Meier Bandeira, com pesquisas efetuadas em fontes esportivas.

GESSY LIMA  SAIU DO E.C.URUGUAIANA PARA SER UM DOS MAIORES CRAQUES DO BRASIL

gessi_limaNatural de Uruguaiana, pouco se sabe sobre a infância de Gessy até ele chegar ao Grêmio. Ele veio para o Grêmio em 1955, e Foguinho, treinador do time na época, o dispensou. Meses depois, o Grêmio foi jogar em Uruguaiana, contra o Ferro Carril, e o cônsul gremista de lá teria apostado com Ari Delgado, dirigente tricolor: “Gessy vai fazer dois gols, driblando Airton (Pavilhão) e Ênio Rodrigues“. Ari saiu de lá tendo perdido a aposta.

O Craque Paradoxal

Assim Gessy era chamado pois, segundo ele próprio, não gostava de jogar futebol. Não sentia prazer em fazê-lo. Sequer comemorava a maioria de seus gols, e só seguia no esporte pelo seu incontestável e imesurável talento.

Além disso, a bola pagava suas contas enquanto ele estudava para adentrar a faculdade de odontologia.

Carreira no Grêmio

Após o jogo em Uruguaiana, Gessy foi contratado imediatamente. Foi penta campeão Gaúcho entre 1956 e 1960, vencendo todos que disputou. Seu estilo de jogo se caracterizava pelo drile rápido em direção ao gol, um chute forte e preciso, e um passe qualificado que consagrou Juarez, o “tanque”, como grande artilheiro gremista da época. Ficou conhecido, também, como “Rei da Janelinha”, uma referência a seu drible característico.

Apesar dos vários títulos, foi um jogo em particular, e a história que o envolveu, que imortalizaram Gessy nas páginas da história do futebol mundial.

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Vitória em La Bombonera

Em 1959, Gessy tinha provas para o vestibular de Odontologia. O Grêmio foi jogar em Montevidéu e, depois, Buenos Aires. Ele ficou fazendo as provas, passou no vestibular e comemorou com largas quantias de álcool.

Porém, estava combinado que iria para Buenos Aires enfrentar o Boca Juniors. E ele foi. Desceu do avião ainda alcolizado. O dirigente Ari Delgado tratou de escondê-lo de Foguinho. Gessy dormiu até a hora da partida. Gessy fez quatro gols, e o Grêmio ganhou do Boca Juniors de 4 – 1, sacramentando a primeira derrota do Boca em La Bombonera para um clube estrangeiro em toda sua história.

O capitão da equipe argentina à época teria dito na ocasião algo como: “Tirem este homem, está acabando com o Boca!”. Conta-se que Gessy foi aplaudido de pé pelo estádio inteiro.

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Após o Grêmio

Em 1961 e 1962, Gessy foi jogar na Portuguesa de Desportos, paralelamente cursando a faculdade. Se formou, então, e abandonou o futebol aos 26 anos. Não aceitava nem dar entrevistas, e talvez por isso saiba-se tão pouco sobre o Craque Paradoxal.

JOÃO CARDOSO CAMPEÃO MUNDIAL

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26/02/2008

Passamos a contar a história de João Rodrigo Cardoso, este jovem senhor que hoje desfruta de sua aposentadoria no bairro Tristeza, em Porto Alegre. Ele jogou futebol. Saiu de Uruguaiana para conquistar o mundo em nome de um time de futebol. Era o único brasileiro presente no histórico ano de 1967 do Racing Club de Avellaneda, quando o clube argentino conquistou a Libertadores e o primeiro título mundial do futebol do país.

O Cardoso nos recebeu – Daniel Cassol, Miguel Enrique Stédile e Eduardo Seidl – no seu apartamento, em dezembro do ano passado. Jantamos e tomamos alguma cerveja com ele, para uma reportagem que está publicada na edição de fevereiro da Revista Brasileiros. Vale visitar o site da revista, que traz o vídeo do gol de Cárdenas contra o Celtic, da Escócia, na terceira partida do Mundial Interclubes. O texto que segue é quase o mesmo que foi publicado na revista.

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CARDOSO, CAMPEÓN DEL MUNDO
Texto: Daniel Cassol e Miguel Enrique Stédile.
Fotos: Eduardo Seidl e Arquivo Pessoal.

O jogo está encardido. O Celtic da Escócia e o Racing Club da Argentina estão no 0 a 0 na terceira e decisiva partida do Mundial Interclubes de 1967. O jogo se arrasta nervoso como as grandes decisões: poucos arremates a gol e muitos pontapés no meio do campo. A pressão é maior sobre La Academia. O ponteiro marca dez minutos da etapa final. O atacante Cárdenas recebe a bola a 30 metros da meta adversária. Patea, patea – chuta, chuta – gritam os companheiros. É o que Cárdenas faz. Em linha reta, a bola alcança o ângulo direito, inalcançável para o arqueiro Fallon. Golaço. O mês de novembro recém conta quatro dias e o Racing se torna o primeiro clube argentino campeão do mundo.

Um único brasileiro está em campo nesta noite. É João Rodrigo Cardoso, gaúcho de Uruguaiana que tentou ser feliz no Grêmio, mas fez carreira no futebol argentino, passando pelo Newell’s Old Boys e pelo Independiente. Conhecido pelo sobrenome, jogou uma das mais disputadas Libertadores da América para depois enfrentar o Celtic nas três partidas da conquista mundial.

Quarenta anos depois, Cardoso manda avisar que não comparecerá na cervejinha cotidiana com os amigos, em um bairro da Zona Sul de Porto Alegre. Veste a gloriosa jaqueta alvi-celeste e retira as medalhas e quadros da gaveta, para receber jornalistas em seu apartamento, fato que surpreende os três filhos: com 69 anos, aposentado como fiel de armazém do Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais (Deprec), Cardoso sempre foi arredio à imprensa. Do passado, pouco fala, a não ser quando lhe suplicam pelas histórias de quando estufava as redes nos estádios de futebol ao sul do continente.

Parece que as coisas mudaram desde que voltou à Argentina, em novembro último, para receber homenagens pela conquista. No ônibus de volta – porque tem medo de avião – talvez tenha se dado conta de que fez algo grande na vida: jogou futebol, sobretudo, e foi o único brasileiro a ter participado da maior glória do Racing Club de Avellaneda.

Nos tempos de Uruguaiana
Sua epopéia pessoal começou nos campos enlameados de Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina, onde nasceu, no Natal de 1939. Seus pais se chamavam Aristotelina e Aristóteles, um criador de ovelhas que mudou-se para cidade, onde administrou por décadas o Mercado Público Municipal. Às noites, João Cardoso cabulava as aulas do Colégio União para jogar futebol sob os postes de luz nas ruas da cidade. Recebia surras do pai pela falta de dedicação aos estudos, aos quais respondia: “Pode me bater, mas um dia eu vou jogar no Grêmio”.

E assim aconteceu. Aos 20 anos, quando saía do serviço militar, uma boa atuação numa olimpíada militar lhe rendeu seu primeiro contrato profissional com o Esporte Clube Uruguaiana. Jogou ali por pouco mais de três meses. Em setembro daquele ano, o Grêmio Porto-Alegrense foi à cidade realizar um amistoso contra o Uruguaiana. Cardoso correu, chutou, jogou bem: treze dias depois, assinou com o time da capital, treinado pelo lendário Osvaldo Rolla, o Foguinho.

cardoso_formacaogremioCardoso (agachado, segundo da esquerda para direita) jogou no Grêmio de Juarez, Aírton, Gessi e Foguinho.

Podia ter tido melhor sorte com a camiseta tricolor. Era capaz de executar um “rush fulminante”, nas palavras do jornalista Walter Galvani. Tratava-se de “um tipo raro de avante, nestes tempos em que quase todos querem logo se ver livres da bola, temerosos das cargas dos adversários”, segundo o jornalista que, escrevendo na época, previa um problema para o treinador Foguinho: Cardoso era da mesma posição que Gessi e Juarez, dois atacantes que entrariam para a galeria dos maiores craques do Grêmio, pentacampeão gaúcho de 1956 a 1960 e que seria hepta de 1962 a 1968. “Foi o meu azar”, lembra Cardoso.

Nos três anos em que esteve no Grêmio, João Cardoso jogava mais nos aspirantes e raramente na equipe principal. Centroavante de ofício, precisava improvisar-se na ponta direita para garantir um lugar no time de cima. Seu habitat era a grande área, mas a distância da camisa 9, sua preferida, foi a sina que o acompanhou até o fim da carreira.

Não tem perigo, dizia Foguinho
O mercado ainda não determinava o calendário do futebol. Na falta de competições, os times faziam excursões pelo mundo. Cardoso conheceu quase toda a Europa defendendo o Grêmio, em horas intermináveis de pânico em aviões que pareciam se desmanchar no céu. Em uma das partidas, enfrentaram o Real Madrid, regido pelo húngaro Puskas. “Era baixinho, gordo, mas não conseguíamos pegá-lo nem com as mãos”. Conta Cardoso que, antes da partida, o treinador Foguinho foi falar com o zagueiro Pavilhão, usando um de seus bordões: “Não tem perigo, senhor Aírton. Este Puskas até eu consigo marcar”. No intervalo da partida, já com dois gols de Puskas, o zagueiro retrucou o treinador: “Seu Foguinho, o senhor não quer entrar em campo pra marcar o Puskas?”.

cardoso_golgremiogreciaEm excursão pela Europa, Cardoso marca um gol contra o AEK da Grécia.

Ao cabo da excursão, havia jogado bem e marcado 12 gols. “Na volta para o Brasil, pensei que viraria titular”, diz. Mas o Grêmio contratou Paulo Lumumba para a mesma posição e Cardoso adotou uma estratégia suicida, na tentativa de ser negociado para outro clube: “Fiquei brabo e não treinava. Quando me botavam pra treinar, chutava a bola pra longe, bagunçava o treino”.

Tentar a sorte na Argentina
Ao fim, foi para o Newell’s Old Boys, na segunda divisão argentina, trocado por um ponteiro direito, Ribeiro, a quem chamavam Tesourinha II, por sua semelhança com o craque do Internacional na década de 40. Cardoso selou seu destino e foi jogar bola do outro lado do rio Uruguai. “Eu não conhecia futebol argentino, clubes na minha infância eram Santos, Palmeiras, porque em Uruguaiana só se sintonizávamos as rádios do centro do País. Não fazia idéia de que time era o Newell’s”.

Era um tempo em que os brasileiros povoavam as canchas do país vizinho, embalados pelo bicampeonato brasileiro na Copa do Mundo. Só no Newell’s haviam outros sete brasileiros: Zuca, Cacique, Mourão, Cleo, Adroaldo, Ivo Diogo, Deraldo Conceição.

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Publicado originalmente na Revista Brasileiros.

FLORENTINO ROBALES

 
 
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Florentino Robales pela equipe do Uruguaiana, do interior do Rio Grande do Sul 
 
Florentino Robales, atacante uruguaio radicado no futebol gaúcho na década de 1940, faleceu no dia 5 de fevereiro de 2011, aos 82 anos, em Uruguaina-RS, na fronteira com a Argentina. Deixou mulher, Laci Robales, os filhos: João Miguel, Luis Felipe e Rosa Helena, além do netinho, Bernardo, de quatro anos.Nascido em Bella Unión, no Uruguai, Robales iniciou a carreira aos 17 anos, nos juniores do Penharol, de Montevidéu.Em 1945, transferiu-se para o futebol brasileiro, mais especificamente ao Grêmio Esportivo Bagé-RS, onde atuou até 1948. Florentino Robales destacou-se como atacante ao lado de jogadores como Nelci e Jessi, que marcaram época vestindo a camisa da equipe gaúcha.

 

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Equipe Jalde-Negra que aplicou derrotas históricas no Grêmio e no Internacional, em Uruguaiana. Em pé, da esquerda para a direita, os atletas são: Bacuri, Ari, Robales, Nelci, Pedro Fita e Ubaldino. Agachados, da esquerda para a direita, os jogadores são: Ernani, jogador desconhecido, Luis Dario, Gessy Lima e Valdir

No mesmo ano, foi contratado pelo Esporte Clube Uruguaiana, mediante a aquisição de seu passe por um grupo de fazendeiros do município. Sendo mencionado com um dos maiores craques da história do futebol uruguaianense, pela imprensa local, Robales receberia o cobiçado troféu de Atleta do Ano de 1948. Pelo clube, o uruguaio protagonizou os dois jogos mais importantes de sua carreira. Florentino foi o maestro da equipe do E.C. Uruguaiana, na vitória sobre o Grêmio, pelo placar de 2 a 1. Os gols foram marcados por Grafulin e Carboja.Outra partida que marcou a vida do ex-atleta foi no jogo contra o Internacional, em 27 de julho de 1951. Sua equipe bateu o Colorado pelo placar de 3 a 1, no estádio Felisberto Fagundes Filho, em Uruguaiana.Embora tenha recebido propostas para atuar em grandes clubes, como Botafogo, Santos e Paris Saint German, da França, nunca quis sair do interior gaúcho, onde construiu sua família.
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Em 1948, Robales ganhou o troféu de Melhor Atleta do Ano

Texto de Marcus Vinicius Dias Magalhães