UM MITO CHAMADO

EURICO LARA

Eurico Lara

Eurico Lara

Em uma época como na década de 20, quando as comunicações eram rudimentares, as histórias corriam de boca em boca e, mesmo não sendo verdadeiras, viravam verdades e se tornavam lendas. Foi assim, que, em muitos pontos desse Rio Grande, o nome do Eurico Lara se tornou um mito. Durante muitos anos se acreditou que Lara morreu em pleno jogo, em um Gre-Nal, ao defender um pênalti cobrado por um irmão seu, jogador do Inter. Essa história é mentira, mas Lara foi um mito. E virou um símbolo do Grêmio.

Nascido em Uruguaiana em 1898, passou a jogar futebol quando ingressou na vida militar. Mas era tão bom que, visto por Máximo Laviaguerre, teve sua reputação divulgada. Laviaguerre fez o seguinte relato à diretoria gremista:

– Em Uruguaiana há um goleiro tão bom que, quando joga, seu “team” não perde!

O livro de Edison Pires, “História do Grêmio – Passado e Presente de um grande clube”, reproduz esta história. Impressionado com estes relatos e outras informações, a diretoria gremista incumbe Luiz Assumpção de trazer esse “fenômeno” para o clube. Foi difícil, pois Lara não queria sair de Uruguaiana, servia o exército e até pretextou uma doença para não ser transferido. Mas o Grêmio tinha força e conseguiu um lugar para Lara na Carta Geral, em Porto Alegre. Começava a saga do arqueiro de Uruguaiana, que chegou a ser tenente e acompanhou as forças revolucionárias na Revolução de 1930.

Toda a preocupação das elites gremistas para com um jovem humilde foram derrubadas quando Lara passou a mostrar seu jeito simples e educado. Em campo, um fenômeno. Fazia defesas impressionantes pelo arrojo, e seu estilo foi aprimorado no Grêmio, quando deixou de defender a socos para dedicar-se às pegadas firmes. Lara também sabia fazer amigos e deixou como legado seu grande espírito esportivo.

Jogou no Grêmio de 1920 a 1935, quando faleceu – em 1928 se desentendeu com o presidente do Grêmio e foi para o F. C. Porto Alegre, mas perdeu uma partida para o próprio Grêmio e voltou ao clube – em 6 de novembro, na Beneficência Portuguesa, por problemas cardíacos, aos 37 anos. Mas antes de morrer, Lara deu a maior demonstração de amor por um clube. Multicampeão da cidade e do Estado, poderia ter deixado o Grêmio e ir tratar da saúde. Mas em 1935, depois de recusar várias propostas durante anos para jogar no Rio e São Paulo – encantou os paulistas em uma seletiva para o Sul-americano em 1922 mas não teve a merecida chance na Seleção Brasileira – fez seu último ato de amor. Jogou a sua última partida em setembro de 1935, para dar mais um título ao Grêmio: o Campeonato Farroupilha. Já estava doente, mas o Grêmio precisava vencer aquele jogo contra o Inter. A torcida sabia que Lara não poderia jogar, mas quando ele surgiu no gramado com a camisa azul e casquete vermelho, foi ovacionado pelos presentes.

O Grêmio venceu por 2 a 0. Em novembro, porém, o Rio Grande do Sul inteiro chorou a morte do craque. A lenda, porém, jamais morrerá. 

Texto extraído da “Edição Comemorativa – 1918/1994 – 76 anos – Federação Gaúcha de Futebol – Os Melhores Momentos” – Página 11.